Por que o Espiritismo Brasileiro se Transformou em uma Religião?

Por: Wilson R. Garcia Em: 28 de julho de 2024

A origem do Espiritismo, codificado por Allan Kardec na França do século XIX, se deu como uma doutrina que propunha a união da ciência, filosofia e espiritualidade. Na capa da obra O Livro dos Espíritos, publicada no ano de 1857, que é considerada a pedra angular do Espiritismo, pode-se identificar o texto “Filosofia Espiritualista”, antes do título do livro. Não parece haver d´puvidas quanto ao propósito do professor francês de apresentar as ideias espíritas como um caminho de reflexão racional e estudo, distanciando-se dos dogmas e ritos característicos das religiões tradicionais. No entanto, ao chegar ao Brasil, o Espiritismo assumiu contornos religiosos que o transformaram em uma prática devocional, muito distinta de sua proposta original. Mas o que levou a essa transição?

Inicialmente, o Espiritismo foi introduzido no Brasil entre as elites, que viam na doutrina uma combinação de intelectualidade e espiritualidade. Para essas camadas da sociedade, o Espiritismo representava uma alternativa sofisticada em relação à fé tradicional, mantendo, ao mesmo tempo, os valores de caridade e de progresso moral. Além disso, o movimento encontrou terreno fértil entre abolicionistas e republicanos por sua visão igualitária e libertária, ganhando adeptos que desejavam distanciar-se de práticas religiosas dogmáticas e centralizadas.

Com o tempo, o Espiritismo foi ganhando popularidade entre as camadas mais baixas da sociedade brasileira. O contexto religioso brasileiro, permeado por crenças populares, a forte presença da igreja católica aliada às tradições africanas, influenciou profundamente a forma como o Espiritismo foi absorvido. Nesse ambiente, a doutrina começou a ser praticada com características mais próximas às religiões tradicionais, com rituais e devoções comuns no catolicismo e nas religiões afro-brasileiras.

Outro fator fundamental para essa transformação foi a atuação da Federação Espírita Brasileira (FEB), que adotou uma visão do Espiritismo centrada na caridade e na moral cristã. A FEB direcionou o movimento espírita nacional para um formato mais devocional e religioso, promovendo figuras mediúnicas como Chico Xavier. A imagem de Chico Xavier, em especial, ganhou conotações de santidade, aproximando-se das figuras católicas de devoção, o que consolidou um Espiritismo religioso e mais próximo das práticas populares.

Ao adotar uma postura fortemente voltada para a caridade e assistência social, o Espiritismo brasileiro passou a valorizar o aprimoramento moral individual em detrimento das reformas sociais mais amplas. Essa ênfase na “reforma íntima” aliada à hisórica posição antipolítica adotada pela FEB. acabou por afastar o espírita de uma abordagem política e transformadora da sociedade, aproximando-o do conservadorismo. O conceito de caridade foi então fortalecido como prática religiosa, deixando de ser apenas uma filosofia de progresso.

Conclusão

A transformação do Espiritismo em religião no Brasil foi impulsionada por uma convergência de fatores culturais, sociais e institucionais. Embora a proposta original de Allan Kardec fosse uma doutrina racional e científica, adaptada ao contexto europeu do século XIX, no Brasil ela encontrou um terreno fértil para se transformar em uma religião. Hoje, o Espiritismo brasileiro apresenta essa dualidade: ao mesmo tempo em que conserva suas bases filosóficas, incorpora práticas religiosas que fortalecem a conexão com o povo brasileiro, mas que distanciam a doutrina de sua essência original.

 

 

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