Higienização Social e Caridade

Por: Wilson R. Garcia Em: 10 de dezembro de 2025

Um projeto de lei municipal da cidade de Piracicaba que prevê multa para quem distribuir alimentos a pessoas em situação de rua reacende o debate sobre políticas higienistas e sobre a crescente aporofobia, que é a aversão social aos pobres. Embora justificado como medida regulatória, esse tipo de proposta revela o desejo de afastar a pobreza dos espaços públicos, ignorando que a fome continua existindo independentemente de proibições. Em várias cidades, práticas semelhantes vêm sendo adotadas, como abordagens para expulsar recém-chegados sem endereço fixo e a chamada arquitetura hostil, que impede o descanso de quem vive nas ruas.

A situação de rua não é escolha voluntária, mas resultado de traumas, adoecimentos, rupturas familiares, dependência química, transtornos mentais, dificuldades econômicas e ausência de políticas sociais eficazes. A fome, a falta de água potável e a precariedade do sono minam a dignidade e impedem qualquer possibilidade de organização da vida cotidiana. Mesmo quando existem abrigos, suas regras rígidas nem sempre atendem às necessidades emocionais ou psicológicas dessas pessoas.

A caridade, entendida não apenas como doação material, mas como visão compassiva do mundo, contrasta com políticas que punem quem tenta aliviar a fome alheia. A dignidade de quem recebe ajuda inclui o direito de escolher e de ser tratado com respeito. Doar não é caridade quando serve apenas para aliviar a consciência; caridade verdadeira implica empatia, cuidado e reconhecimento da humanidade do outro.

Sob a perspectiva moral e espiritual, todas as pessoas caminham para um mesmo destino evolutivo, ainda que estejam em estágios diferentes. Aptidões e trajetórias individuais são naturais e podem gerar diferenças que também são naturais, mas desigualdade extrema não é obra de Deus; nem exclusivamente expiação de erros do passado, mas sim, das condições sociais impostas ao indivíduo. Quando o acesso à alimentação, moradia e cuidados básicos é negado, não se trata de diversidade humana, mas de injustiça social.

O Espiritismo esclarece que a responsabilidade pela situação de miséria, não é exclusivamente do indivíduo, mas, sobretudo da sociedade. Se o Estado, por meio do governo eleito pelo povo, representa a sociedade, cabe a ele garantir os direitos fundamentais, e não dificultar o acesso a eles. 

A fome não pode ser tratada como falha moral individual. Sem alimentação e condições mínimas de vida, nenhuma pessoa consegue desenvolver plenamente suas potencialidades. Uma sociedade orientada por valores humanitários e cristãos reconhece que ninguém deveria morrer de fome e que medidas punitivas contra ações solidárias apenas aprofundam a exclusão.


🎧 Este artigo é inspirado na conversa entre Alan Diniz Souza e Wilson R. Garcia no episódio “Higienização Social e Espiritismo: Uma Reflexão Espírita Sobre Leis que Criminalizam a Solidariedade” do podcast Espiritismo Sem Censura.

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