O papel social da mulher à luz do Espiritismo: reflexões necessárias

Por: Wilson R. Garcia Em: 7 de abril de 2025

 

Hoje quero compartilhar um pouco da conversa que tive com Alan Diniz Souza no podcast Espiritismo Sem Censura, onde discutimos um tema fundamental: o status social e o papel da mulher, especialmente sob a perspectiva espírita.

Desde o início, deixamos claro: somos dois homens falando sobre um tema que envolve profundamente as vivências femininas. Reconhecemos que há limites nisso, mas nosso objetivo aqui foi dialogar com as ideias espíritas e provocar reflexões, sem pretender esgotar ou ocupar espaços que não nos cabem. Fomos buscar diretamente nas obras básicas do Espiritismo, especialmente em O Livro dos Espíritos, que é a base da doutrina codificada por Allan Kardec.

Uma coisa precisa ser dita logo de início: as obras da codificação não são sagradas. Nós, espíritas, as consideramos um ponto de partida importantíssimo — e levamos essas ideias a sério —, mas isso não nos impede de criticá-las. Ao contrário: devemos analisá-las à luz do tempo presente. Isso é essencial para que o Espiritismo continue sendo um pensamento vivo, progressivo e libertador.

Quando se trata da mulher, encontramos em O Livro dos Espíritos uma resposta que ainda gera bastante discussão. Kardec pergunta se as leis devem ser as mesmas para homens e mulheres. A resposta espiritual afirma que sim, as leis devem ser iguais, mas ressalva que “as funções são diferentes”: ao homem caberia o trabalho pesado, externo; à mulher, o trabalho mais sensível, de dentro, talvez dentro de casa, talvez dentro de si mesma. Essa resposta nos leva a uma série de questionamentos, principalmente porque ela reflete uma visão de mundo muito ligada ao contexto do século XIX — um tempo extremamente machista.

E aqui entra um ponto crucial: nem sempre a mensagem mediúnica chega de forma pura. Há o espírito comunicante, há o médium que interpreta, há todo um “ruído de tradução”. Por isso, não podemos tomar cada palavra da codificação como se fosse uma verdade absoluta e inquestionável. Allan Kardec mesmo nos convida à razão e à análise. Não estamos menosprezando os ensinamentos ao criticá-los — pelo contrário, os levamos a sério o suficiente para refletir, atualizar, e, se necessário, discordar respeitosamente.

O que a sociedade espera da mulher hoje? Na sociologia, usamos os conceitos de “status social” (posição na sociedade) e “papel social” (funções que se espera que alguém desempenhe). A mulher conquistou muitos direitos, como votar, trabalhar, ocupar cargos públicos, liderar — e isso é um avanço imenso. No entanto, ela ainda carrega uma carga desproporcional de responsabilidades. Muitas vezes, precisa ser tudo ao mesmo tempo: mãe, profissional, cuidadora, mulher, forte e sensível. E, mesmo com esse acúmulo, continua ganhando menos que os homens ao exercerem as mesmas funções.

É preciso lembrar que a entrada da mulher no mercado de trabalho, por exemplo, não foi um ato de emancipação espontânea — ela também teve relação com o próprio sistema capitalista, que encontrou nela uma mão de obra mais barata. Essa crítica não quer dizer que sejamos socialistas ou comunistas, mas sim que temos o dever de pensar em modelos de sociedade mais justos.

Voltando ao Espiritismo: se consideramos que os espíritos são criados simples e ignorantes, e que o sexo é apenas uma característica do corpo físico — com finalidades biológicas, e não espirituais —, por que haveria diferença essencial entre homem e mulher? Um espírito pode reencarnar ora como homem, ora como mulher, conforme sua necessidade evolutiva. Isso já deveria nos levar a pensar de forma diferente sobre papéis fixos, rígidos, e sobre essa suposta “natureza feminina” tão romantizada e limitada.

A verdade é que carregamos, como espíritos reencarnados, muitos ranços de vidas anteriores — inclusive o machismo. É um machismo estrutural, que já está impregnado no nosso psiquismo, e romper com isso exige esforço consciente, diálogo, troca de ideias, escuta ativa e humildade.

Lembro que, quando espíritas leem passagens como aquela sobre os papéis de homem e mulher em O Livro dos Espíritos, muitos ficam desconfortáveis. Alguns tentam fazer verdadeiros malabarismos interpretativos para justificar o que está ali, sem permitir qualquer crítica a Kardec. Mas será que isso não acaba reforçando, ainda que de forma velada, um modelo patriarcal? Será que isso não confirma, para muitos, a ideia de que a mulher “deve” mesmo ficar em casa, cuidando dos filhos, enquanto o homem assume o mundo exterior?

É aí que entra a responsabilidade de reinterpretar. A cultura evolui. A moral evolui. O próprio Espiritismo, se quiser se manter fiel ao princípio do progresso, precisa acompanhar essa evolução. Não podemos continuar lendo textos do século XIX com os mesmos olhos daquela época. Estamos em 2025, e precisamos construir uma sociedade onde ser homem ou mulher seja apenas uma expressão da diversidade humana — e não uma prisão de expectativas.

O machismo é milenar. A escravidão, por exemplo, durou séculos, mas o patriarcado vem de muito antes. Por isso, o processo de transformação é lento, doloroso, e exige muita consciência. A libertação feminina, assim como a luta contra o racismo, não será feita apenas por decretos ou boas intenções. Requer mudança íntima, mudança cultural, mudança espiritual.

Se o Espiritismo quer realmente ser uma doutrina do futuro, ele precisa se abrir para essa crítica. Precisa acolher essas reflexões com maturidade e coragem. Não para abandonar seus fundamentos, mas para vivificá-los. O verdadeiro respeito à codificação está em reconhecê-la como ponto de partida — e não como dogma.

Que possamos caminhar juntos, homens e mulheres, espíritos encarnados em experiências distintas, mas igualmente importantes, rumo a uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais fraterna. Sem censura, com liberdade e com muito amor.

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