Existe liberdade absoluta?
Fala-se muito em liberdade. É um valor proclamado por religiões, filósofos, políticos e movimentos sociais. Mas quanto mais se fala nela, mais evidente se torna o quanto a liberdade é mal compreendida.
A Lei de Liberdade é apresentada por Allan Kardec como a nona das dez Leis Morais em O Livro dos Espíritos. Nessa parte da obra, os Espíritos ensinam que a liberdade absoluta não existe, mas sugerem que ela só poderia ser experimentada pelo eremita que vive isolado no deserto.
Sob uma perspectiva crítica, o exemplo apresentado pelo Espírito de Verdade se mostra incompleto, pois considera apenas os aspectos materiais: a ideia de que o eremita, por não ter ninguém com quem se relacionar, poderia agir livremente, sem responsabilidades, consequências ou limites, é limitada.
Allan Kardec lembra que os Espíritos estão presentes em todos os lugares e, em muitas situações, não apenas influenciam, mas podem, sob certas condições, dirigir nossas ações. Dessa forma, mesmo o eremita no deserto não está realmente sozinho.
Numa visão espiritualista, a sociedade humana não se restringe aos seres encarnados, mas inclui também os Espíritos desencarnados que participam, de maneira invisível, das interações e escolhas de cada indivíduo.
Para o Espiritismo, o ser é tanto mais livre quanto mais compreende as causas de suas ações e age em conformidade com o bem. A obediência às leis divinas não é limitação, mas a expressão mais alta da liberdade, porque nasce da escolha lúcida, não da imposição.
Na filosofia de Immanuel Kant, a liberdade não está no fazer o que se quer, mas no agir segundo a razão moral. O homem é livre quando se governa por princípios universais — quando obedece a uma lei que ele mesmo reconhece como justa.
Kant defende que a autonomia moral é a essência da liberdade. Essa ideia se aproxima do pensamento espírita: a verdadeira liberdade surge quando a vontade humana se alinha à lei moral natural, ou seja, quando o indivíduo age pelo bem não por medo da punição ou por interesses particulares, mas por consciência do dever. Ambos os sistemas — o kantiano e o espírita — veem a liberdade como autodomínio ético e não como permissão ilimitada.
Jean-Paul Sartre apresenta a liberdade sob um viés existencial e angustiante. Para ele, o ser humano está “condenado a ser livre”, porque não há essência prévia nem destino que o determine. Cada escolha é um ato de criação de si mesmo — e cada omissão também é uma escolha.
Essa visão ecoa, de certo modo, no Espiritismo, quando se fala do livre-arbítrio como instrumento de evolução. Assim como em Sartre, a responsabilidade acompanha a liberdade. Nenhum espírito pode fugir das consequências de seus atos, porque a liberdade implica responder por aquilo que se faz com ela. No entanto, enquanto Sartre enxerga essa condenação como um peso existencial, o Espiritismo a transforma em lei de progresso, onde cada escolha é uma oportunidade de aprendizado moral.
Para Karl Marx, não existe liberdade verdadeira onde há dependência material. A liberdade formal — o direito de escolher — é ilusória quando as condições econômicas e sociais obrigam o indivíduo a agir por necessidade. A liberdade real, segundo Marx, começa quando o ser humano domina as condições que o oprimem e pode agir de forma consciente e cooperativa, o que só seria possível após o fim da alienação e da exploração.
Essa ideia também encontra ressonância no pensamento espírita. O ser, enquanto escravo de suas paixões, de seus vícios ou de suas necessidades, não é livre espiritualmente. A libertação material e a libertação moral caminham juntas — ambas são etapas de uma emancipação integral do espírito.
É preciso ainda reconhecer que a modernidade converteu a liberdade em uma mercadoria, um valor de troca dentro da lógica capitalista. A sociedade de consumo vende a ideia de autonomia individual, estimulando o sujeito a acreditar que pode ser tudo o que quiser — desde que consuma, produza e se adapte às exigências do mercado. Essa promessa de liberdade, no entanto, é profundamente contraditória: ao mesmo tempo em que exalta a independência, impõe padrões rígidos de comportamento, desejo e sucesso, criando uma nova forma de submissão simbólica.
Nesse contexto, o indivíduo deixa de ser apenas um trabalhador para se tornar o “empreendedor de si mesmo” — alguém que deve investir em sua própria imagem, habilidades e produtividade como se fosse uma empresa. A responsabilidade pelo êxito ou pelo fracasso deixa de ser coletiva e passa a recair unicamente sobre o sujeito, que se vê “livre” para trabalhar exaustivamente, muitas vezes 12 ou 14 horas por dia, em busca de um ideal de sucesso definido por critérios externos e inatingíveis. Assim, a liberdade moderna, em vez de libertar, aprisiona em novas formas de servidão voluntária, disfarçadas sob o discurso da autonomia e da meritocracia.
O desafio proposto pelo Espiritismo sem Censura é recuperar o sentido espiritual da liberdade: libertar-se das forças internas que escravizam — o orgulho, o egoísmo, o medo — e das forças externas que nos conduzem sem percebermos. Enquanto a vontade estiver presa à ignorância e à necessidade, a liberdade será apenas aparência.