Dia das Mães e o Silêncio das Crianças Institucionalizadas: Um Olhar à Luz do Espiritismo

Por: Wilson R. Garcia Em: 6 de maio de 2026
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O Dia das Mães costuma ser celebrado como uma exaltação do amor materno. As imagens que circulam nessa época apresentam famílias reunidas, abraços emocionados, lembranças afetivas e a figura da mãe como símbolo máximo de cuidado e proteção. Para muitos, trata-se de uma data de gratidão e reencontro, mas, essa não é a relidade de muitas crianças, como daquelas que foram acolhidas em abrigos, casas-lares ou instituições de proteção. Para elas, o Dia das Mães pode trazer lembranças e sentimentos dolorosos, como o abandono, a saudade, a violência e até a culpa.

À luz do Espiritismo de Allan Kardec, os vínculos humanos não podem ser compreendidos apenas pelas relações estabelecidas na vida material. A família, segundo a perspectiva espírita, não é construção sobre laços de sangue nem tampouco fruto do acaso biológico. Ela, muitas vezes, constitui um espaço de reencontros espirituais, aprendizado moral e desenvolvimento afetivo.

Os verdadeiros laços familiares são espirituais. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec afirma que os laços de família não são destruídos pela reencarnação; ao contrário, frequentemente se fortalecem através das múltiplas existências. Isso significa que as relações humanas carregam histórias anteriores, experiências compartilhadas e processos de evolução que ultrapassam uma única existência.

Essa compreensão muda profundamente a forma de enxergar a família e a maternidade. A mãe deixa de ser apenas uma figura biológica para tornar-se também uma companheira espiritual de jornada. O vínculo materno passa a ser entendido como uma oportunidade de aprendizado mútuo, reparação, reencontro e crescimento.

Contudo, isso não significa idealizar todas as relações familiares. O próprio Espiritismo reconhece que muitos reencontros acontecem em contextos difíceis. Existem famílias marcadas por conflitos profundos, dores antigas e provas dolorosas. Nem sempre o vínculo entre mãe e filho se manifesta de maneira harmoniosa. Em alguns casos, há abandono, violência, negligência ou incapacidade emocional. Entender isso é importante porque impede uma visão romantizada da maternidade.

Quando pensamos nas crianças institucionalizadas, é necessário compreender que, por trás de cada acolhimento, geralmente existe uma história atravessada por sofrimento social e humano. Muitas mães amam seus filhos profundamente, mas vivem situações extremas de pobreza, dependência química, violência doméstica ou adoecimento psíquico. Outras não conseguiram construir os recursos emocionais necessários para exercer o cuidado.

Na perspectiva espírita, o julgamento cede lugar à compreensão, porque se reconhece que as escolhas humanas são influenciadas pelas condições sociais, afetivas e culturais em que cada indivíduo se desenvolve. Como ensina O Livro dos Espíritos (questões 811 e 813), a responsabilidade individual existe, mas a sociedade também participa da formação das circunstâncias que favorecem ou dificultam o progresso moral.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar o impacto emocional que datas como o Dia das Mães provocam nessas crianças. Enquanto a sociedade reforça modelos idealizados de família, muitas delas sentem-se deslocadas diante das homenagens escolares, das propagandas emocionais e das narrativas de felicidade familiar. Existe um sofrimento silencioso em perceber que sua própria experiência não corresponde ao modelo “ideal” celebrado coletivamente.

É justamente nesse ponto que o espiritismo pode nos ajudar a compreender a maternidade. Por que não existe modelo de família ideal. Em muitos abrigos, educadoras, cuidadoras, avós, tias sociais e profissionais desenvolvem vínculos profundos com as crianças acolhidas. São relações que muitas vezes se constroem no cotidiano invisível: no alimento oferecido, na escuta paciente, na proteção durante a madrugada, no afeto que persiste mesmo diante das dificuldades institucionais.

O amor encontra caminhos para existir mesmo em cenários de ruptura. Uma sociedade verdadeiramente humana não pode limitar-se a homenagens emocionais uma vez por ano enquanto milhares de crianças crescem marcadas pela exclusão afetiva e social. É preciso que cultivemos uma nova visão de mundo mais integradora.

O Espiritismo ensina que o amor verdadeiro não se perde. Os vínculos afetivos autênticos atravessam o tempo, sobrevivem às separações e continuam produzindo efeitos espirituais profundos. Talvez o maior ensinamento espiritual presente no Dia das Mães seja justamente este: o amor não pode ser reduzido à aparência social das relações. Ele é mais profundo, mais complexo e mais silencioso do que frequentemente imaginamos.

Uma sociedade mais madura espiritualmente deve ser capaz de reconhecer maternidade não apenas nas fotografias felizes e nos discursos idealizados, mas também nas histórias interrompidas, nas tentativas imperfeitas de cuidado e nas infâncias invisíveis que continuam esperando acolhimento, dignidade e pertencimento.