Entre a Guerra e o Silêncio: o desafio ético do espiritismo diante de violações dos direitos humanos
Nos últimos dias, um episódio expôs uma tensão profunda entre política, religião e ética no cenário internacional: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez duras críticas ao papa Leão XIV após suas declarações contrárias às ações militares conduzidas pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, bem como aos discursos que incentivam a guerra.
O ponto central da controvérsia não foi apenas político, mas profundamente moral: de um lado, uma liderança religiosa defendendo a paz; de outro, declarações que flertam com a destruição em larga escala, chegando a sugerir a eliminação de toda uma sociedade.
Diante disso, surge uma pergunta inevitável: qual deve ser o papel das religiões, e, especialmente, do Espiritismo diante de situações tão extremas como essas?
Quando a religião se posiciona
Historicamente, líderes religiosos têm sido cobrados por suas posições diante de injustiças sociais, guerras e desigualdades. No caso recente, o papa Leão XIV, assim como já havia feito Papa Francisco, reafirma um princípio básico do cristianismo: a defesa da vida, da paz e dos mais vulneráveis.
Essa postura dos líderes da igreja não deveria causar estranhamento. Ao contrário, é coerente com os ensinamentos atribuídos a Jesus. O que chama atenção é o conflito gerado quando valores espirituais entram em choque com interesses políticos e ideológicos.
Mais inquietante ainda é observar que parte significativa de fiéis apoia discursos que contradizem esses mesmos valores.
O silêncio que incomoda
Se por um lado há lideranças religiosas se posicionando, por outro há um silêncio constrangedor de muitas pessoas, especialmente dentro do movimento espírita.
Instituições como a Federação Espírita Brasileira e diversas federações regionais raramente se manifestam publicamente sobre temas como guerra, violência ou crises humanitárias.
Esse silêncio levanta um questionamento importante: a omissão também é uma forma de posicionamento?
Em um mundo globalizado, onde decisões políticas afetam diretamente a vida de milhões, manter-se neutro pode significar, na prática, conivência.
A ilusão da neutralidade espiritual
A Federação Espírita Brasileira defende a neutralidade institucional, segundo a qual as casas espíritas não devem se vincular a partidos, ideologias ou candidaturas, com o argumento de preservar a unidade do movimento e evitar divisões internas.
Soma-se a isso a ênfase na transformação individual como caminho prioritário de mudança social, o que desloca questões estruturais como desigualdade, violência ou políticas públicas para o campo da moral pessoal.
Há também a preocupação recorrente de que debates políticos possam gerar conflitos e comprometer o ambiente espiritual, sendo vistos como fatores de “baixa vibração”, inadequados ao espaço dos centros espíritas.
Além disso, sustenta-se uma interpretação que separa a doutrina das questões do mundo material, restringindo seu papel ao âmbito espiritual e moral.
Por fim, existe um componente institucional evidente: evitar posicionamentos polêmicos contribui para preservar a imagem da organização e reduzir tensões internas. No entanto, embora esses critérios sejam apresentados como neutros, seus efeitos não o são.
Ao se abster de discutir temas políticos, especialmente aqueles ligados a injustiças e violações de direitos, o movimento acaba assumindo, ainda que indiretamente, uma posição que favorece a manutenção das estruturas existentes, levantando a questão sobre até que ponto a neutralidade é, de fato, possível.
Uma doutrina orientada por princípios progressistas não pode se esconder atrás da neutralidade; ela exige posicionamento claro e corajoso diante de situações que violam, de forma evidente, os direitos humanos.
A noção de que o espírita deve se afastar de conflitos para preservar uma suposta “vibração positiva” torna-se, no mínimo, eticamente questionável quando esse distanciamento resulta em prejuízos concretos à sociedade. Uma doutrina que apresenta Jesus como o modelo e o guia para nossas ações no mundo e que é originalmente orientada por princípios progressistas não pode se esconder atrás da neutralidade; ela exige posicionamento claro e corajoso diante de situações que violam, de forma evidente, os direitos humanos.
Certamente que ninguém é proibido de reconhecer o mal quando ele existe. Também não seria bom enxergar apenas o bem por toda a parte. Esse tipo de ilusão prejudicaria progresso.
Adaptado de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. X, item 20
O próprio Evangelho Segundo o Espiritismo alerta que ignorar o mal não contribui para o progresso. Ver apenas o bem, quando o mal é evidente, é uma forma de alienação que contribui para que as coisas permaneçam exatamente como são, ou seja, trata-se de uma positividade tóxica, que na prática somente atrasa a marcha do progresso.
Espiritismo: filosofia ou zona de conforto?
O espiritismo surgiu como uma proposta essencialmente filosófica, orientada pela busca do conhecimento, pelo exercício do pensamento crítico e pela transformação moral do indivíduo. Hoje, porém, percebe-se um deslocamento preocupante: esse impulso investigativo vem sendo gradualmente substituído por práticas mais superficiais e confortáveis, que exigem menos reflexão e menos confronto com a própria realidade.
O resultado é um enfraquecimento de sua essência original. Uma doutrina que nasceu para questionar e provocar passa, pouco a pouco, a assumir uma postura mais passiva, distante dos desafios concretos do mundo em que está inserida.
O perigo da neutralidade
Além disso, é inevitável questionar quais critérios orientam os posicionamentos da Federação Espírita Brasileira. Em determinados temas, a instituição entende ser legítimo — e até necessário — se manifestar publicamente; em outros, opta pelo silêncio sob o argumento da neutralidade. Essa aparente seletividade levanta uma questão central sobre coerência: com base em que princípios se decide quando falar e quando se calar?
Em diversas ocasiões, a FEB veio a público se posicionar contra o aborto. Não se trata aqui de discutir o mérito desse tema, mas de observar o padrão adotado. Em debates recentes, um representante da instituição chegou a afirmar que a discussão deveria se apoiar em fundamentos religiosos, sob a justificativa de que o Brasil é um país essencialmente religioso. Essa postura evidencia que, quando considera pertinente, a entidade não hesita em adotar posicionamentos claros — o que torna ainda mais significativo o silêncio em outras questões igualmente sensíveis.
O momento atual exige mais do que fé silenciosa. Exige consciência, coragem e coerência.
Se o espiritismo se propõe a ser um caminho de evolução moral e intelectual, ele não pode se furtar aos grandes debates da humanidade. Não pode se esconder atrás da neutralidade enquanto a violência se impõe.
Conclusão
O episódio recente não é apenas uma disputa entre política e religião. Ele revela algo mais profundo: a necessidade urgente de alinhamento entre valores espirituais e atitudes concretas. O verdadeiro desafio não está apenas em reconhecer o bem, mas em não se calar diante do mal. Porque, no fim, a pergunta permanece: Estamos vivendo aquilo que dizemos acreditar?
REFERÊNCIAS
1. Agência Câmara de Notícias. Federação Espírita manifesta-se contra aborto de anencéfalos.
2. Metropoles. Por que entidades espíritas querem atuar em ação sobre aborto no STF