O fracasso moral de uma sociedade que idolatra o sucesso
Vivemos em uma sociedade que costuma admirar quem acumula riqueza, poder e prestígio. Basta alguém ocupar uma posição de destaque para receber atenção, respeito e reconhecimento. Já quem enfrenta dificuldades financeiras, muitas vezes, passa despercebido. Essa realidade não é nova. Allan Kardec já observava esse comportamento em O Livro dos Espíritos, publicado em 1857. Passados quase 170 anos, a impressão é que mudamos muito em tecnologia, mas pouco em humanidade.
O problema é que essa lógica acaba moldando nossas referências. Crianças e jovens crescem cercados por figuras públicas que simbolizam sucesso financeiro e influência, como se esses fossem os maiores objetivos da existência. Pouco importa a qualidade moral dessas pessoas; o que realmente desperta admiração é a capacidade de acumular dinheiro, fama e poder.
Esse modelo está na direção oposta da mensagem de Jesus. Em nenhum momento dos Evangelhos o Cristo buscou riqueza ou prestígio. Ao contrário, aproximou-se dos excluídos, dos pobres e daqueles que eram desprezados pela sociedade. Sua autoridade nascia do serviço, não da posição social.
O Espiritismo propõe a transformação do ser humano, mas essa mudança não pode ficar restrita ao campo individual. A reforma íntima perde seu sentido quando convivemos pacificamente com estruturas que produzem exclusão, desigualdade e sofrimento. Evoluir espiritualmente significa desenvolver uma consciência capaz de enxergar essas injustiças e assumir uma postura coerente diante delas.
É justamente nesse ponto que muitas experiências religiosas enfrentam sua maior contradição. Fala-se de amor, fraternidade e caridade, mas, na prática, nem sempre os mais vulneráveis estão entre as prioridades. Em alguns casos, a religião passa a reproduzir a mesma lógica de competição, prestígio e poder presente na sociedade. Quando isso acontece, Jesus deixa de ser inspiração e passa a ser apenas um discurso conveniente.
Seguir o Cristo exige muito mais do que professar uma crença. Exige rever prioridades, questionar valores e colocar a dignidade humana acima dos interesses econômicos. Não basta defender o amor em teoria enquanto permanecemos indiferentes às desigualdades que atingem milhões de pessoas.
Vale a pena fazer um exame de consciência. Quantos de nós estariam dispostos a abrir mão de parte do próprio patrimônio para preservar o emprego de outra pessoa? Quantos aceitariam ganhar menos para que outros tivessem uma vida mais digna? Quantos recusariam um negócio lucrativo por entender que ele produz sofrimento ou exploração? Enquanto não formos capazes de assumir a posição do Cristo, talvez seja mais honesto reconhecer que nosso verdadeiro mestre é o dinheiro. Afinal, Jesus nunca ensinou que o sucesso consiste em acumular riquezas; ensinou que a vida encontra sentido quando somos capazes de servir, ainda que isso nos custe conforto, e status social.